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Menino de 11 anos desafia preconceitos e expõe feridas do Brasil em ‘Feito Pipa’
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Foto Divulgação Reprodução - Menino de 11 anos desafia preconceitos e expõe feridas do Brasil em ‘Feito Pipa’
Filme dirigido por Allan Deberton acompanha menino de 11 anos que enfrenta o preconceito, enquanto cuida da avó com Alzheimer e vê sua comunidade ameaçada por uma barragem
O cinema brasileiro ganha em 2026 uma história que mistura infância, preconceito, relações familiares e esperança sem transformar seus personagens em figuras simples. Em “Feito Pipa”, o diretor Allan Deberton acompanha Gugu, um menino de 11 anos interpretado por Yuri Gomes, que vive no interior do Nordeste e transita naturalmente entre o futebol, a maquiagem e a dança.
A forma como o personagem é apresentado é um dos principais pontos da produção. Gugu não é retratado como alguém que precisa mudar para ser aceito. Ele gosta de jogar bola, mas também gosta de se maquiar e dançar. Para o menino, essas características fazem parte de quem ele é. O conflito surge justamente na dificuldade do mundo ao redor em compreender e respeitar essa liberdade.
Um dos principais conflitos da trama está na relação entre Gugu e o pai, Batista, interpretado por Lázaro Ramos. O personagem poderia ser apresentado apenas como um pai preconceituoso, mas o filme escolhe um caminho mais complexo. Batista demonstra amor pelo filho e, ao mesmo tempo, carrega preconceitos que dificultam a aproximação entre os dois.
Essa relação coloca o espectador diante de uma questão central da história: até que ponto o afeto é suficiente quando existe um preconceito que impede alguém de aceitar plenamente quem está ao seu lado?
Na família, Gugu encontra na avó Dilma, interpretada por Teca Pereira, o principal espaço de acolhimento. É com ela que o garoto consegue viver sua infância com mais liberdade e sem precisar esconder quem é.
Esse cenário, porém, começa a mudar quando Dilma apresenta sinais de Alzheimer. A personagem se recusa a aceitar o avanço da doença e tenta preservar a própria independência. Gugu, então, passa a assumir responsabilidades que normalmente não seriam esperadas de uma criança de sua idade.
O menino ajuda a cuidar da casa, acompanha a avó e tenta preservar aquele espaço que representa segurança para ele. A história de Gugu passa, dessa forma, a ser também uma narrativa sobre amadurecimento precoce e sobre uma infância que precisa lidar com problemas muito maiores do que os esperados para seus 11 anos.
A trama também se desenvolve em meio a um conflito coletivo. A construção de uma barragem ameaça retirar moradores de suas casas e provoca revolta na comunidade, em uma situação que acaba em tragédia.
O problema social não aparece apenas como pano de fundo. A história da comunidade se conecta à trajetória de Gugu ao abordar uma questão semelhante: o sentimento de pertencimento e a ameaça de perder o lugar onde uma pessoa se sente segura.
Enquanto o garoto luta para preservar seu espaço dentro da própria família, os moradores enfrentam a possibilidade de perder suas casas e parte da história construída naquele território.
A trajetória de Gugu também carrega uma dimensão pessoal. O roteiro de André Araújo foi inspirado na própria infância do autor como um menino afeminado no interior nordestino.
A experiência pessoal ajuda a explicar o tom da produção, que evita transformar o protagonista em um estereótipo. Em vez disso, o filme apresenta uma criança com desejos, dúvidas, relações familiares e sonhos, permitindo que sua identidade seja apenas uma parte de quem ele é.
“Feito Pipa” utiliza essa história para discutir preconceito e aceitação, mas também para falar sobre família, envelhecimento, desigualdade, pertencimento e infância.
No fim, a produção aposta na esperança. A história de Gugu representa o desejo de que crianças que não se encaixam nas expectativas impostas pela sociedade possam crescer sem precisar esconder quem são.
Mais do que contar a trajetória de um menino específico, “Feito Pipa” propõe uma reflexão sobre quantas crianças ainda precisam escolher entre aquilo que gostam e aquilo que os outros esperam delas. E faz isso ao defender uma ideia simples: ser diferente não deveria significar estar sozinho.
Por Redação RSC

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