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O clima está avisando e até quando vamos esperar para agir?

  • Foto Divulgação Internet - O clima está avisando e até quando vamos esperar para agir?

El Niño já influencia o tempo no Sul do Brasil, enquanto uma sequência de temporais, tornados, granizo e eventos extremos aumenta a preocupação com os próximos meses

Talvez você também tenha percebido.

Nos últimos meses, parece que o tempo simplesmente deixou de seguir aquilo que a gente conhecia. Chuva que não dá trégua, ventos capazes de derrubar árvores e estruturas, granizo em lugares onde esse tipo de ocorrência não era tão comum, temporais cada vez mais severos e cidades que, de uma hora para outra, precisam lidar com alagamentos, deslizamentos e destruição.

E não estamos falando de um único lugar.

No Rio Grande do Sul, os temporais recentes deixaram um rastro de destruição. Em agosto, um tornado foi registrado durante uma tempestade que atingiu municípios gaúchos e houve morte provocada pela queda de uma árvore. Em outras regiões do país, ventos fortes e chuvas intensas também provocaram estragos.

É difícil olhar para tudo isso e não perguntar: o que está acontecendo com o nosso clima?

O clima está avisando e até quando vamos esperar para agir?Foto Divulgação Internet

O El Niño já começou a dar sinais

O El Niño não é mais apenas uma possibilidade distante para o fim do ano.

Em abril, a Defesa Civil de Santa Catarina e a Epagri/Ciram já apontavam cerca de 80% de probabilidade de início do fenômeno entre julho e agosto. Em julho, o cenário havia se confirmado e o aquecimento das águas do Pacífico Equatorial avançou de +0,7°C para +1,2°C. A NOAA chegou a indicar 81% de probabilidade de que o fenômeno atingisse intensidade muito forte entre a primavera e o início do verão.

E Santa Catarina já começou a sentir mudanças compatíveis com esse padrão.

A própria Defesa Civil estadual afirmou, em julho, que o El Niño começava a influenciar o tempo no Estado, com períodos de calor fora de época seguidos por chuva mais intensa e temporais. Os meteorologistas, no entanto, fazem uma ressalva importante: não é possível dizer que um evento isolado aconteceu exclusivamente por causa do El Niño.

Mas talvez seja justamente aí que esteja o alerta.

Não precisamos esperar o pior acontecer para perceber que alguma coisa está mudando.

Não é só uma cidade, não é só um Estado

Enquanto o Sul enfrenta temporais e chuva intensa, outras partes do Brasil e do mundo convivem com calor extremo, secas, enchentes e outros eventos severos.

E, quando olhamos para trás, percebemos que aquilo que antes parecia um acontecimento excepcional começa a aparecer com uma frequência que assusta.

Você lembra das enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul?

Milhares de famílias perderam casas, bens, documentos e, em muitos casos, pessoas que nunca mais voltaram para casa.

Passado algum tempo, a sensação é de que a gente começa a se acostumar com imagens que jamais deveriam se tornar normais.

Uma cidade alagada.

Uma família retirando móveis de casa.

Uma estrada destruída.

Uma árvore sobre um carro.

Um telhado arrancado pelo vento.

Uma escola transformada em abrigo.

E, depois de tudo, começa a reconstrução.

Até que venha o próximo evento.

O clima está avisando e até quando vamos esperar para agir?Foto Divulgação Reprodução

O problema é esperar acontecer

E aqui está o ponto principal desta reflexão.

Será que estamos realmente nos preparando?

Porque, quando uma tempestade chega, muitas cidades pequenas precisam correr contra o relógio. Abrem valas, limpam canais, tentam desobstruir bueiros, retiram árvores, improvisam abrigos e procuram maneiras de proteger a população.

É o famoso “se virar nos 30”.

Mas por que precisamos esperar a água subir para pensar na drenagem?

Por que precisamos esperar uma estrada desabar para discutir contenção?

Por que uma família precisa perder tudo para que uma área de risco seja tratada como prioridade?

Por que precisamos esperar uma tragédia para lembrar que existem sistemas de alerta, planos de emergência e estruturas que poderiam ser melhor preparados?

Não estamos falando apenas de dinheiro.

Estamos falando de planejamento.

O alerta já foi dado

A Defesa Civil acompanha o El Niño há meses. Em julho, o órgão catarinense já falava em aumento da possibilidade de chuva acima da média e intensificação do fenômeno.

E a preocupação não está restrita à Defesa Civil.

A Agência Nacional de Energia Elétrica, por exemplo, programou para agosto um evento específico para discutir os impactos de um possível “Super El Niño” sobre o sistema elétrico brasileiro e estratégias para aumentar a resiliência diante de eventos climáticos extremos.

Ou seja: o assunto existe, está sendo estudado e está sendo monitorado.

Mas será que essa discussão está chegando à ponta?

Está chegando às cidades menores?

Está chegando às comunidades que vivem próximas de rios, encostas, áreas alagáveis e regiões mais vulneráveis?

Está chegando às famílias?

O clima está avisando e até quando vamos esperar para agir?Foto Divulgação Reprodução

E o que estamos fazendo antes do problema?

Estamos entrando em um período eleitoral.

E talvez esta seja uma das perguntas que deveriam estar nas ruas, nas entrevistas, nos debates e nas conversas com candidatos:

Como nossas cidades vão se preparar para eventos climáticos extremos?

Não importa o partido.

Não importa quem está no poder.

Não importa quem estará no poder depois da eleição.

A chuva não escolhe candidato.

O vento não escolhe partido.

Uma enchente não pergunta em quem você votou.

Quando a água entra em uma casa, ela entra na casa de todo mundo.

Por isso, falar sobre prevenção não deveria ser uma discussão política. Deveria ser uma obrigação de qualquer pessoa que ocupa um cargo público e tem responsabilidade sobre uma cidade.

Não é para assustar

E aqui faço questão de deixar claro: esta matéria não é para dizer que o fim do mundo está chegando.

Não é.

Também não significa que todos os temporais, tornados, granizos ou outros fenômenos registrados recentemente sejam consequência direta do El Niño. Cada evento precisa ser analisado individualmente, porque o clima é resultado de uma combinação enorme de fatores.

O que esta matéria pretende é chamar atenção para algo muito mais simples.

O que está previsto ainda não aconteceu em sua pior forma.

E talvez seja justamente por isso que ainda temos tempo.

Tempo para limpar.

Tempo para planejar.

Tempo para mapear.

Tempo para construir.

Tempo para preparar abrigos.

Tempo para melhorar sistemas de drenagem.

Tempo para orientar famílias.

Tempo para fortalecer a Defesa Civil.

Tempo para discutir infraestrutura.

Tempo para parar de tratar prevenção como algo que pode ficar para depois.

Porque, depois que acontece, não adianta perguntar por que ninguém avisou.

A Defesa Civil avisou. Os pesquisadores estão avisando. Os meteorologistas estão avisando. O próprio mundo está mostrando.

A pergunta agora é outra:

até quando vamos sentar e esperar o pior acontecer para começar a agir?

Talvez o maior erro seja acreditar que ainda temos muito tempo.

Talvez tenhamos.

Mas se temos, que ele seja usado para prevenção, e não para esperar a próxima tragédia.

Porque sim, o que estamos vendo pode ser apenas um alerta.

E talvez seja exatamente isso que deveríamos fazer com um alerta: escutar antes que ele vire uma tragédia.

Não é o fim do mundo, mas está começando a parecer que é.

Por Redação RSC - Rayssa Coelho


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