Imbituba: da última estação baleeira do sul para a Capital Nacional da Baleia-franca
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- José Honório em visita ao Museu Nacional da Baleia Franca, em Imbituba - Foto: Duda Indalêncio
Por Anna Luiza Siqueira - Com informações ProFranca e Documetário: Fome de Redenção
Confira relatos da época do último caçador de baleias ainda vivo em Imbituba; José Honório Martins.
Imbituba registra 52 baleias-franca até agora, e a temporada 2023 acaba somente em novembro. O pico mais elevado das aparições das gigantes do mar é em setembro. De acordo com dados do Projeto Franca Austral (ProFRANCA), o monitoramento, realizado no dia 18 de agosto, registrou os mamíferos principalmente nas praias da Ribanceira, Itapirubá, Ibiraquera e da Vila.
A presença desses cetáceos é histórica na região, que serve de berçário para a procriação e alimentação dos animais. O monitoramento aéreo tem o objetivo de fazer a contagem desses mamíferos marinhos, verificar a composição e localização dos grupos e fotografar os indivíduos para posterior identificação.
Baleia-Franca

As baleias-francas são cetáceos de grande tamanho, podendo atingir mais de 17 metros de comprimento nas fêmeas e um pouco menos nos machos. No entanto, participantes da caça à baleia-franca, no litoral do Estado de Santa Catarina, nas décadas de 1950/60 afirmam que baleias com mais de 18 metros foram capturados nas imediações de Garopaba e Imbituba. As fêmeas adultas, segundo registros de captura, podem chegar a pesar mais de 60 toneladas, enquanto os machos pesam até 45 toneladas.
O corpo é preto e arredondado, sem aleta dorsal e a cabeça ocupa quase um quarto do comprimento total. Nela destaca-se a grande curvatura da boca, que abriga pendentes, cerca de 250 pares de cerdas da barbatana, que são ásperas e na sua maior extensão negro-oliváceas.
A caça

Segundo informações do Projeto Franca Austral (ProFRANCA), em 1775 o capitão norte-americano Uriah Bunker, comandando o baleeiro Amazon, descobriu a abundância de baleias-francas nos “Bancos do Brasil”. Cerca de 500 milhas ao largo da nossa costa, ele iniciou uma corrida para a caça no Atlântico Sul. Porém, no ano de 1830, o número de baleias-francas mortas já havia declinado tanto que a área foi abandonada pelos baleeiros norte-americanos e franceses. Os mesmos passaram a navegar para o Pacífico à procura de novas oportunidades para o extermínio sistemático dos grandes cetáceos.
Após um breve período de inatividade, no início do século XX, as povoações de “Lagoinha” (praia da Armação, Florianópolis), Garopaba e Imbituba retomaram a caça de forma rudimentar e esporádica. As duas primeiras duraram até a década de 1950 e a de Imbituba, surpreendentemente, até 1973.
Em 1952 foi introduzido na técnica de captura dos baleeiros de Imbituba o uso do canhão-arpão, montado na proa da baleeira e que aumentava a eficiência da captura, levando a um pico de eficiência em 1957 com o abatimento de 10 animais, das quais duas perdidas no mar. Por esta época, a estação baleeira era um galpão de 360 metros quadrados localizado na praia do Porto, e que teve como último operador a Sociedade Indústria de Produtos de Pesca Ltda. Ainda restam destas instalações os tanques de óleo e fragmentos das ruínas, Patrimônio Histórico tombado em 1998 pela Prefeitura Municipal de Imbituba e que constitui memória da última estação baleeira do Sul do Brasil.
Consumo

O consumo da carne nunca foi o objetivo das capturas de baleias nas Armações da Costa Sul do Brasil; antes, aproveitava-se a camada de gordura, que nestes cetáceos era particularmente espessa, para a produção de óleo destinado à iluminação (principal uso até a primeira metade do século XIX), lubrificação e fabricação de argamassa utilizada em igrejas e fortalezas como as que até hoje resistem ao tempo no litoral catarinense. Secundariamente, as “barbatanas” – o aparelho de cerdas filtradoras de alimento existente na boca das baleias francas – era vendido para a fabricação de espartilhos.
O último caçador vivo em Imbituba

José Honório Martins, completou 90 anos neste mês de agosto, lenda viva. O último caçador de baleia-franca, se legalizou como pescador em 14 de agosto de 1950, na Capitania dos Portos de Laguna, no auge dos seus 19 anos. Após um tempo, caçar baleia se tornou a renda de muitos imbitubenses, e não foi diferente para o senhor Honório.
O ex-caçador conta que iniciou na caça com 50 anos, fazendo a função de remeiro. Navegando em busca das gigantes do mar, o senhor José Honório conta que percorriam toda a região próxima à Imbituba. “Nós éramos 5 na embarcação. Caçamos por aí tudo, de Laguna até Garopaba. Era um dia só para caçar, durante a noite elas desapareciam. O máximo de tempo que fiquei caçando foi um dia e uma noite, porque a embarcação não tinha conforto”, explicou o pescador.
Segundo relatos de José Honório, a maior baleia já capturada por ele e seus companheiros na época, tinha 25 metros. “Filhote ninguém pegava, as baleias tinham entre 10m e 25m. O local que mais pescamos era aqui em Imbituba. Trazíamos a baleia para a praia no remo, dependendo do lugar, por exemplo; a Ilha das Araras, em Itapirubá, era uma hora de remo. Era o local mais longe que íamos remando atrás delas. Quando o tempo prometia, vento e essas coisas, nós trazíamos ela inteira. Se fossemos caçar em Garopaba, o vento tinha que ser nordeste, trazia no remo, barco a vela”, contou José.
Por temporada, os caçadores capturavam entre 4 e 5 baleias, de acordo com o último caçador vivo, em Imbituba. Quando a pesca da Baleia-Franca foi proibida, o senhor José Honório contou que já não realizava mais a prática.
Hoje em dia, Imbituba é a Capital Nacional da Baleia-Franca, e conta com espaço próprio para conhecimento histórico e tudo o que envolve os cetáceos. O Museu Nacional da Baleia Franca de Imbituba fica localizado no bairro Vila Alvorada (Aguada), e foi reinaugurado em fevereiro deste ano.
“Eu acho muito importante o museu para a Imbituba. Eu fiquei emocionado vendo as crianças curiosas entrando aqui”, finalizou o senhor José Honório.

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